Encontro
Hodie, nunc, hoc anno
Querido diário,
não sei se você pode me ouvir. Tive um dia estranho. Logo eu, cujos dias costumam ser tão mediocremente normais. Logo eu, tão racional, chego em casa e não posso sequer explicar para o gato coalhado o que vivi.
Encontrei-me comigo mesmo.
Sim. Meu eu de seis anos atrás, arranhando seu modesto blog de raros leitores, como a escrever artigos literários na revista Orfeu. Lá estava ele... no escuro, bruxuleando à luz das velas. Ele gostava muito de velas. Garoto jovem, sonhador. Romântico, admirava os túmulos e os cemitérios. Amaldiçoado sem saber. Chegava a brilhar de expectativas, de talento, de entusiasmo com o futuro que se lhe abria, ainda sem o amargor do fracasso.
Feliz, ele ri cristalinamente, bem encaixado em seu quebra-cabeça, todas as peças no lugar.
Nem me reconheceu.
Digo, como alguém do passado pode reconhecer seu futuro, torto e desfigurado? É contra as regras.
Esbarrei-lhe em seu ombro, derrubando algumas de suas palavras no chão. Apressei em recolhê-las e entregá-las, ciente do quão preciosas elas eram para ele. O garoto olhou-me um tanto intrigado, enquanto reorganizava sua sintaxe, colando os signos de volta ao corpo. Demorou-se no olhar. Era como se algo lhe puxasse no fundo da mente, como se adivinhasse algo de mim que ainda lhe fosse um mistério. Espelho ao avesso.
Esbarrei-lhe em seu ombro, derrubando algumas de suas palavras no chão. Apressei em recolhê-las e entregá-las, ciente do quão preciosas elas eram para ele. O garoto olhou-me um tanto intrigado, enquanto reorganizava sua sintaxe, colando os signos de volta ao corpo. Demorou-se no olhar. Era como se algo lhe puxasse no fundo da mente, como se adivinhasse algo de mim que ainda lhe fosse um mistério. Espelho ao avesso.
- Deste mistério tu não queres beber - falei, como quem se desculpa.
Minha voz ecoou rouca, impertence.
- Você é um leitor?
- De certa maneira. Para aonde vai depois daqui? - indaguei.
- Eu vou ser grande, como todos dizem que vou ser. O mundo é meu.
Não me olha nos olhos. Ecce! A marca da Besta. Distraído, subitamente algo o incomodou em minha presença. Percebeu que eu lhe roubava algumas palavras que não queria dizer. Então, com um jovial "Tchau, tenho pressa" virou-se e correu em direção ao corredor seguro de seus sonhos.
Não tive coragem nem vontade de avisá-lo. Deixei-o ir. Mas então surgiu-me uma esperança repentina! Fiz-lhe um sinal, um gesto, entreguei-lhe uma pedra. Mas não disse nada. As palavras não saíram, tão escassas e incertas em comparação com as dele, pulsando quentes em meu bolso, como estrelas recém formadas.
Ele pegou a pedra fria na mão. Olhou-me novamente, espantado. Quem é que dá pedras a estranhos, afinal?
E me sorriu.
Minha voz ecoou rouca, impertence.
- Você é um leitor?
- De certa maneira. Para aonde vai depois daqui? - indaguei.
- Eu vou ser grande, como todos dizem que vou ser. O mundo é meu.
Não me olha nos olhos. Ecce! A marca da Besta. Distraído, subitamente algo o incomodou em minha presença. Percebeu que eu lhe roubava algumas palavras que não queria dizer. Então, com um jovial "Tchau, tenho pressa" virou-se e correu em direção ao corredor seguro de seus sonhos.
E eu fiquei ali, no meio da catedral em névoas, a observar a sólida forma dos ecos.
Ele pegou a pedra fria na mão. Olhou-me novamente, espantado. Quem é que dá pedras a estranhos, afinal?
E me sorriu.
Deu-me as costas, caminhou até o altar de um Tiranossauro há muito extinto; ali, seus olhos me observam curiosos, entre luz e sombras. Sorri uma última vez. E então desvanece.
Quebra-se o espelho.
Mia o gato!
Leitor incerto, caro companheiro improvável...
Você pode me ouvir?
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